Mais um pedacinho... espero que gostem...
1607, lembro-me
perfeitamente desse ano, as luzes de la vechia Itália estavam mais amareladas do que nunca. O cheiro das flores primaveris, ao repousar sobre elas me embriagavam, era uma criança feliz, com a beleza de um anjo esculpido em mogno, e a perspicácia de um filosofo grego.Papai andava muito ocupado com alguns afazeres e me deixava sempre com professores particulares. Certo dia, ele sorriu dizendo que remediaria tudo a noite. Então, nesta mesma noite ele me levou a primeira apresentação da opera Orpheus, de Cláudio Monteverdi. Eu não piscava para não perder nenhum detalhe, e não os perdi. Apoiado no balcão sacado da frisa olhava cada movimento do tenor no palco, e dos amigos de meu pai ao fundo da frisa, homens pálidos e com cheiro de morte, e isso me fez gelar por vários instantes, como se tudo acontecesse em camera lenta. Homens trajando negro, com olhos sem brilho vital, parados como belas e apáticas estátuas de cera olhando para papai, temi por sua vida. Pela primeira vez pensei na morte, e o quão cruel era por afastar pessoas que se amam. Ele me olhou, e com seu sorriso terno ofereceu seu colo. Corri sorrindo, esquecendo por completo meus medos, encostei a cabeça em seu peito e adormeci, ouvindo a trágica e doce opera.
Sim continua... mas, sem previsões.
Bom Feriado.
|Ouvindo: Apocalyptica - Path, vol 2|