Meu sangue negro por parte de mãe, tem história triste, dolorida, que deve ser contada:
Meu avô de família tradicional portuguesa era mestiço filho de filho de senhor de escravos e uma filha de ex-escravos . Criados na mesma casa estes se apaixonaram jovens e ela engravidou. Levaram-na pra fazenda deixando o bebê para que meu bisavô se casasse com uma branca. Ameaçaram deserdá-lo, caso não se casasse. O mais estranho é que quando mais velho rejeitou o dinheiro e viveu "humildemente" num casarão no Catete. Sempre dizendo aos netos que herança só traz problemas.
Minha avó foi VÍTIMA do programa de branqueamento da população (sim isso existiu). Um português casou-se com minha bisavó negra, tiveram 4 filhos a mais velha era minha avó. Esse ganhou um pedaço de terra por casar com ela e plantava cevada. Quando finalmente se viu como dono do monopólio de cevada de uma certa cervejaria trouxe sua esposa portuguesa e a abandonou com os filhos. Esta por sua vez se suicidou, deixando minha avó com apenas 9 anos cuidando dos mais novos. Desde então minha avó lavava roupa e limpava casas até os 16 anos quando conheceu meu avô (história acima) e se casou. Meu avô procurou o pai dela para pedir sua mão em casamento e ouviu a seguinte resposta: "Quanto tu queres?" Meu avô prontamente mandou ele enfiar o dinheiro no
Eles viviam bem, pois meu avô era protético, porém ele contraiu tuberculose e morreu quando minha mãe tinha 3 anos. Minha avó relutou em deixar os filhos com meu bisavô (pai do meu avô) porém não tinha como sustentá-los sozinha (eram 8).
Minha mãe que diferente da minha avó pode estudar, conheceu meu pai quando ambos trabalhavam em uma multinacional. Meu pai, de família Ítalo-portuguesa, que ouviu de parentes: "Que cor vão nascer os filhos com essa mulatinha?"
Essa mulatinha... minha mãe, que me conteve pra não arrebentar uma mulher que a viu, fez cara de nojo e segurou a bolsa. A mesma que lutou na ditadura, que me ensinou a pensar, que é minha heroína. Que criou meu irmão, que foi barrado na escada do prédio da minha tia-avó: "Porque, sei lá né branca dos olhos azuis, não podia imaginar que ela tinha um neto queimadinho."
Hoje, entendo que nunca passei por nada disso por ter a pele branca, que olham assustados e sem graça quando vêem a minha mãe. E que ela sabe disso, percebe, se entristece.
Vejo essas coisas e tantas outras que não dá pra contar, desde as tribos de onde vieram meus antepassados escravizados até coisas do cotidiano. E que a herança de ódio persiste em cada relativização da dor alheia, em cada silenciamento.
"Hoje (ontem) estava almoçando na hora em que passava o RJTV quando iniciou uma notícia sobre o feriado e então parei para escutar - não esperava que anunciassem eventos de luta, mas pensei nos culturais - então veio a notícia: Véspera de feriadão e já tem transito para sair do Rio de Janeiro... Fim"
"Meus heróis não viraram estátua, morreram lutando contra quem virou." -Uma história de Amor e Fúria.