segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Gaiolas ou asas


Procurando por um antigo projeto de arquitetura, lembrei do texto que me motivou toda aquela guerra. Queria lê-lo mais uma vez, e mais uma, e sempre que eu desacreditar das coisas.



Gaiolas e asas – Rubem Alves


Os pensamentos chegam-me de um modo inesperado, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que, frequentemente, também Lichtenberg, William Blake e Nietzsche eram atacados por eles. Digo atacados porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Os aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, este aforismo atacou-me: Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas.

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controlo. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados têm sempre um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri, conversando com professores em escolas. O que eles contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças… E eles, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações… Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra – e os domadores com os seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres.

Sentir alegria ao sair de casa para ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que os fecha com os tigres. Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes? Ou serão as escolas que são violentas?

As escolas serão gaiolas? Vão falar-me da necessidade das escolas dizendo que os adolescentes precisam de ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, que todos tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor. Mas eu pergunto: as nossas escolas estão a dar uma boa educação? O que é uma boa educação? O que os burocratas pressupõem sem pensar é que os alunos ficam com uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.

Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Sabe o que é um “dígrafo”? E conhece os usos da partícula “se”? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante”? Qual é a utilidade da palavra “mesóclise”? Pobres professores, também engaiolados… São obrigados a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é um hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata a sua experiência com as escolas: Fui forçado (!) a estudar o que os professores decidiam que eu deveria aprender. E aprender à sua maneira.

O sujeito da educação é o corpo, porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que a inteligência era a ferramenta e o brinquedo do corpo, Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprenderferramentas, aprender brinquedos. As ferramentas são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia-a-dia. Os brinquedos são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma.

Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo da educação.Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. As ferramentas permitem-me voar pelos caminhos do mundo. Os brinquedos permitem-me voar pelos caminhos da alma. Quem está a aprender ferramentas e brinquedos está a aprender liberdade, não fica violento. Fica alegre, ao ver as asas crescer… Assim todo o professor, ao ensinar, deveria perguntar-se: Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo? Se não for, é melhor pôr de parte. As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não me dizem se as escolas são gaiolas ou asas.

Mas eu sei que há professores que amam o voo dos seus alunos.

Há esperança…


Rubem Alves

GAIOLAS OU ASAS - A ARTE DO VOO OU A BUSCA DA ALEGRIA DE APRENDER

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Filminhos e felicidade.

Alguns filminhos para trazer felicidade e pensamento crítico nas noites frias:

Brazil (1985) - Completo
Uma comédia distópica dirigida por Terry Gilliam, um dos integrantes do grupo Monty Python.
Sam, filho de um ex-ministro, vive num Estado totalitário e controlado pela burocracia. Até o dia que encontra a garota de seus sonhos, uma terrorista participante da luta contra o sistema. Sem querer, acaba se envolvendo nessa oposição.



Violette
Filme de Martin Provost.
Violette Leduc conhece Simone de Beauvoir nos anos do pós-guerra. Começa assim uma relação intensa e duradoura entre as duas escritoras. Uma história baseada na busca de Violette pela liberdade através da escrita, e na convicção de Simone ter nas mãos o destino de uma escritora extraordinária.



Pelo Malo
Direção de Maria Randón.
Junior, um menino de 9 anos, tem cabelo cacheado, e não pensa em outra coisa senão alisá-lo. Sua mãe, Marta, luta para sustentar a família após a morte do marido e, ao mesmo tempo, preocupa-se com a atenção de Junior com o visual, e tenta evitar o jeito diferente do filho.



O ilusionista
Direção: Sylvain Chomet
A história de um artista que está em decadência, cuja fase de glória está sendo roubada por estrelas emergentes do rock. Forçado a aceitar propostas como se apresentar em bares falidos e festas no jardim, ele conhece uma jovem fã que muda sua vida para sempre.


Eu fazia-lhe perguntas, exigia silêncio. Nessa ladainha nos queixávamos, nos revelávamos atrizes natas. Nos apertávamos até a sufocação. Nossas mãos tremiam, nossos olhos se fechavam. Parávamos, recomeçávamos. Nossos braços pendiam, nossa pobreza nos maravilhava. Eu modelava seu ombro, queria para ela carícias rústicas, desejava sob minha mão um ombro fremente, uma casca. Ela fechava minha mão, alisava um cascalho. A ternura me cegava. Rosto no rosto, nos dizíamos não. Nos apertávamos pela última vez, uníamos dois troncos de árvore num só, éramos os primeiros e os últimos amantes como somos os primeiros e os últimos mortais quando descobrimos a morte.

           Thérèse et Isabelle - Violette Leduc

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Diálogos

As vezes odeio ser Priscila.
Ser assim idiota, impotente e meio burra.
Me importar, querer mudar o mundo.

Tenho um lado meio ébrio que
acredita que o mundo pode ser
legal... É meu Pássaro azul*.

E aí a realidade bate meio forte nele.
























* "Pássaro Azul" Referência ao poema de mesmo nome do velho Buck.

segunda-feira, 30 de março de 2015

sozinho com todo mundo


a carne sobre os ossos
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.
de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.
ninguém nunca encontra
o par ideal.

as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam

nada mais
se completa.

                                  Bukowski

domingo, 22 de março de 2015

Tenho pra mim que no meu interior guardo um ser mais forte.
Um ser mais livre que eu, mesmo estando aprisionado.
Um ser que não se prende a convenções e que observa a loucura do mundo como se observasse uma presa.
Um ser paciente, que aguarda tranquilamente o seu tempo de sair.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Vida

























Por que me ensinaram que tu eras impuro?
Que teria de esconderte muito bem nas minhas saias,
Que ninguém sequer teria de saber
Que estava a manchar com vermelho
Minha cama...
Se você é sangue que canta o milagre,
A mesma que grita que não temos vindo da dura costela de um homem,
Mas do ventre morno de uma mulher ;
Contigo, em vez da água bendito,
Conviria persignar todas as frentes,
Você que vens para do ventre sagrado,
Você que sai do ventre quente,
Você que da testemunho de vida,
Você que sabe curar as pessoas.
Uma noite destas, eu vou em silêncio dançando os campos,
Vou deixar que baixe o meu sangue, aqui por minhas pernas,
Que chegue aos ranhuras, que entre na terra ;
Haverá mais colheita, a fruta mais doce...
Se cada mulher fizesse o mesmo,
Se fossemos todas dançando os campos,
Teria mais amor nos povos do mundo,
Teria mais doçura...
Bendito sangue lunar
Que pintas de fértil meu ventre
Que linda carinho lhe de las ao meu sexo!
Gostaria de contigo pintarme a face
Os lábios, os seios e a alma
Pintar nas mãos daquele que me ama...
- Karluna terso

terça-feira, 3 de março de 2015

A Dança

Eu lhe mandei meu convite, a nota inscrita na palma da minha mão pela chama da vida.Não dê um salto gritando: “Sim, é isso que eu quero!Vamos em frente!”
Apenas se levante em silêncio e dance comigo.
Mostre-me como você segue seus desejos mais profundos, descendo em espiral em direção à dor dentro da dor, e lhe mostrarei como eu me volto para dentro e me abro para fora para sentir o beijo do Mistério, doces lábios sobre os meus, todos os dias.
Não me diga que você quer encerrar o mundo inteiro
no seu coração.
Mostre-me como você evita cometer outra falta sem
se desesperar quando sofre uma agressão e tem medo de não receber amor.
Conte-me uma história sobre quem você é, e veja quem eu sou nas histórias que estou vivendo.
E juntos nos lembraremos que cada um de nós sempre tem uma escolha.
Não me diga que as coisas serão maravilhosas… um dia.
Mostre-me que você é capaz de correr o risco de ficar
completamente em paz, totalmente à vontade com a maneira como as coisas são neste exato momento,
e também no momento seguinte, e no seguinte…
Já ouvi histórias demais sobre a audácia heroica.
Conte-me como você desmorona quando
esbarra no muro, o lugar que você não pode transpor pela força da sua vontade.
O que conduz você para o outro lado desse muro, para a frágil beleza da sua condição humana?
E depois de mostrarmos um ao outro como definimos e mantivemos os limites claros e saudáveis que nos
ajudam a viver lado a lado um com o outro, vamos correr o risco de lembrar que nunca deixamos de
amar em silêncio aqueles que um dia amamos
em voz alta.
Leve-me para os lugares do planeta que ensinam
você a dançar, os lugares onde você pode correr o risco de deixar o mundo partir seu coração,
e eu conduzirei você aos lugares onde a terra debaixo dos meus pés e as estrelas no céu fazem meu coração ficar inteiro de novo, e de novo.
Mostre-me como você cuida dos negócios sem deixar que eles determinem quem você é.
Quando as crianças estão alimentadas mas as vozes
internas e as externas gritam que os desejos da alma têm um preço alto demais, vamos lembrar um ao outro que o que importa não é o dinheiro.
Mostre-me como você oferece ao seu povo e ao mundo as histórias e as canções que você quer que os filhos de nossos filhos recordem, e eu revelarei a você como eu me empenho, não para mudar o mundo, mas para amá-lo.
Sente-se do meu lado e compartilhe comigo longos
momentos de solidão, conhecendo tanto a nossa absoluta solitude quanto o nosso inegável pertencer.
Dance comigo no silêncio e no som das pequenas
palavras cotidianas, sem que eu me responsabilize no fim do dia por nenhum de nós dois.
E quando o som de todas as declarações das
nossas mais sinceras intenções tiver desaparecido no vento, dance comigo na pausa infinita antes da grande inalação seguinte do alento que nos sopra a
todos na existência, sem encher o vazio a partir de dentro ou de fora.
Não diga “Sim!”.
Pegue apenas a minha mão e dance comigo.


- Oriah Mountain Dreamer